Acerca de mim

Amarante, Portugal

quinta-feira, 10 de abril de 2008

“Pingas no Exterior”


Resvalada pela profundidade do corte que se abate no infinito escuro, viajo imprecisa pela memória do tempo. Setas flamejantes que me penetram a mente e me fustigam o pensamento.
Pinga no exterior…
Galhos e pontos obstruem o seu infinito deslizar no negrume do asfalto…

…No difícil caminhar do corpo, as palavras tímidas trespassadas no interior fechado da paisagem saem mudas, ofuscadas pela presença do teu olhar que invade o meu mais obscuro ser.
Hoje vês, e devoras-me…
Hoje ouves, e mutilas-me…
Hoje sentes, e penetras-me…
Amanhã abstrais-te, e consomes-me…
Só…
…Amálgama nos fios de linho vermelho que me trespassam a pele, pingam gotas de doce veneno ímpio… Saltitam no chão e resvalam-se perdidas na corrente de lava espessa e infernal, para que não sejam apanhadas, descobertas e sentidas.
No desejo de chegar e sair continuas a decepar-me a memória, na demanda do querer, do sentir e do saber…

Pinga com mais intensidade, o caminho torna-se cada vez mais difícil…

… As orbitas do dia continuam a esmagar o negro do desconhecido, calejadas pela dureza das facadas onde jorram esguichos de matéria quente, que incendeia as antefaces que insistem em não cair.
Presa na idolatração da pintura, sou absorvida pelo teu olhar de ansiedade fugaz que me faz perder na natureza morta, enfeitada por espinhos de rosas vermelhas, segregadas, que brotam um desejo inalcançável de te possuir.

Chamada à realidade… as pingas tornam-se agora espessas gotas que se abatem diante de mim, lembrando intempéries, na descoberta de uma alvorada próxima!

…O efeito de transparência emitido pela escuridão da noite traz os pensamentos e desejos mais obscuros entranhados na pele e que emanam nos poros como se de uma maré a emergir se tratasse.

A espuma esbatida no teu corpo transmite o desejo entranhado nas tuas vísceras e na tua mente.
A noite é o meu dia, sempre escondida pelo nascer de uma nova alvorada.
O dia é o meu chão, que se resvala num mar vermelho sem fim à vista onde a espuma esmaecida que cola em nós nos chama e nos afasta. Finos incrementos pintados no corpo e no espírito, como pequenas gotículas de veneno que se espalham e nos devassam as entranhas.
Dilacerado pelo trépido e cortante olhar que me solda a alma a este eterno e profano pensamento, o meu corpo inepto transforma-se e manifesta-se em inquietantes línguas de fogo. Adormecida pela traição da mente, estalidos estridentes num som metálico e gélido renascem quentes no eco da escuridão que se abate na cortina fechada de todo o corpo.
Salpicam e rebatem pequenos cristais derretidos pelo nascer da alvorada, que escorrem no gume da navalha, que delicada e docemente se afia no teu pescoço, onde traça singelamente riscos vermelhos escorridos e molhados pelo orvalho de um liquido viscoso, pingando na tela a pintura do teu coração.

Os pingos terminaram…
A tempestade abateceu-se… Mas o roncar silenciou e as luzes apagaram-se!
A viagem terminou.

CM

Abril de 2008

2 comentários:

Anónimo disse...

... dexter ...

D

Anónimo disse...

Esta é uma versão moderna e reciclada do Ricardo Reis com alguns traços " arquitectónicos" pelo meio. É um texto forte. E uma gota às vezes pode ter um poder imenso. Seja gota de água no deserto, uma gota de sangue resultante de uma luta, seja a " última gota" que faz desabar o universo. Paula T. Gonçalves

Seguidores

Pesquisar neste blogue